terça-feira, 30 junho , 2026

MPSC realiza evento em alusão ao Setembro Amarelo

“Eles são preguiçosos e não tentam”, “é falta de caráter” ou “eles podem facilmente sair disso, se se esforçarem o suficiente” são frases comuns no processo de rotulagem de pessoas que passam por doenças mentais. Na quinta edição do evento “Setembro Amarelo: reveja seus conceitos”, especialistas fizeram reflexões sobre emoções e conceitos de felicidade para cada pessoa dentro de suas realidades sociais e de seu ambiente de trabalho. O encontro aconteceu nesta sexta-feira (6) no auditório da Procuradoria-Geral de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), em Florianópolis.

No início do evento, o Coordenador do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e Terceiro Setor (CDH), Promotor de Justiça Douglas Roberto Martins, apresentou dados da Associação Brasileira de Psiquiatria que indicam a ocorrência de cerca de 12 mil casos de suicídio no Brasil por ano e a informação de que, a cada 100 pessoas, ao menos 17 já tiveram alguma intenção suicida. “Isso é um indicativo claro de que é preciso falar sobre esse problema. A função do Ministério Público, uma das mais essenciais, é a proteção dos direitos humanos, e quando se fala de direitos humanos o mais elementar deles é o direito à vida. É preciso, então, continuar quebrando o tabu que existe a respeito do assunto. Falar para conhecer, conhecer para prevenir: esse é o lema. Temos que valorizar a vida”, afirma.

Para o Secretário-Geral do Ministério Público, Promotor de Justiça Samuel Dal-Farra Naspolini, que representou o Procurador-Geral de Justiça, Fernando da Silva Comin, este é um evento marcado pela coragem de suscitar um tema que normalmente tende a nos afastar. “É muito gratificante fomentar essa discussão não apenas internamente, entre os Servidores e os Promotores, mas abrir as suas portas para a sociedade. Assim, nós enriquecemos a nossa atuação”, relata.

Ainda na abertura, o secretário de Estado da Saúde, Helton de Souza Zeferino, destacou a questão do preconceito, sobretudo em relação ao tratamento de doenças mentais.”Quando alguém está sendo cuidado por um psiquiatra, as pessoas o tratam como louco. Nós temos uma grande dificuldade de entender que existem patologias mais graves, que realmente precisam de tratamentos mais adequados”, ressalta. A presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Lílian Schwanz Lucas, também falou sobre a discriminação acerca do assunto, afirmando que o melhor remédio é o conhecimento. “Cada um que sai daqui hoje será um difusor de conhecimento científico sobre o tema e um agente de promoção de saúde para toda a população”, completa. 

Palestras

Quem acompanhou o evento teve informações sobre a questão do suicídio com três especialistas em psiquiatria, que abordaram o estresse, o desgaste emocional e a vulnerabilidade.

A primeira palestra, ministrada pela médica psiquiatra Vanessa Pereira Leal, teve como tema “A depressão não é quem eu sou: significado de estigma para pessoas com transtornos mentais”. A fim de tratar da temática, a psiquiatra trouxe pesquisas que mostram que a maioria das pessoas com depressão relata algum tipo de estigma, um conceito definido em três níveis: estereótipos, preconceito e discriminação. “O mundo tem uma crescente necessidade de cuidados de saúde mental, mas esses cuidados precisam ser aceitos culturalmente. Para criar uma cultura livre de estigma, é preciso dar acesso à informação e não minimizar o sofrimento do outro”, conta.

Para abordar o sofrimento psíquico das minorias sociais no Brasil, foi convidado o médico psiquiatra e professor da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) Alexandre Ferreira Bello. “Ele apontou as minorias mais atingidas pelas doenças mentais, como a população indígena e a comunidade LGBT. É necessário melhorar o suporte social e emocional, assim como dar acesso ao tratamento adequado”, propõe.

A psiquiatra e doutoranda em Ciências da Saúde Ritele Hernandez da Silva também marcou presença no evento para falar sobre “Trabalho e saúde mental: do esgotamento à resiliência”. Ela apresentou um ângulo diferente sobre o conceito de trabalho, normalmente caracterizado como forma de reconhecimento e ascensão social, mas que nos últimos anos vem criando uma relação cada vez mais estreita com o suicídio. Além disso, também discutiu a Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Esgotamento Profissional, que atinge 30% dos mais de 100 milhões de trabalhadores brasileiros, de acordo com pesquisa realizada pela International Stress Management Association (Isma). “O trabalho vem mudando, há uma maior velocidade de informações, há metas e graus de exigência cada vez maiores, e ser viciado em trabalho, o chamado workaholic, virou um elogio. Precisamos parar, observar e mudar esse sistema”, conclui a psiquiatra.

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